Friday, 13 May 2011

16 - Boléro de Ravel (souvenirs d'en France)

Tamara de Lempicka - Les réverbères
Tu m’as dit de venir    

et me voici chez-toi, chérie, de bonne grâce,
sachant bien que de ces jeux d’amour, la vie va nous punir…

Je t’embrasse
à la lumière de tes bougies,
écoutant de la musique que tu as choisie.

Je te déshabille à ton plaisir:
lentement… doucement… comme un fruit défendu,
dont le châtiment attendu
ne fait qu’augmenter le désir.

Mais… maintenant ce sont mes mains
qui, libres, parcourent tes seins,
sculptant leurs formes à mon gré     
et les font durcir entre les doigts...
c'est ainsi que Salomon a chanté... la reine de Saba.

Des ombres fantasques dansent sur les murs
et par la fenêtre, au rythme des tambours,
les réverbères percent le crépuscule qui tourne au noir
avec les cordes, les flûtes et d'autres vents
et à leur tour arrivent les bois, les cymbales et le clavecin…
le Boléro sort des haut-parleurs cachés par des armoires.

Entre mes bras, frémissante et nue,
ta peau de soie contre ma poitrine velue,
je découvre le goût de tes cheveux
de ta bouche et de tes yeux,
la chaleur de ton ventre et ton souffle d’anxiété
la pression de tes cuisses et de tes pieds,
une marée qui monte et ne peut plus s’arrêter…

La ritournelle finie, nous trouve égarés,
abandonnés par le vertige des mondes perdus
ou jamais rencontrés.
L’enchantement rompu,
interdis, sans jour et sans l’heure,
nous devenons otages de la route suivie...
prisonniers des chances que nous offre la vie
de toucher de nos mains l’impossible bonheur.

JSR

Friday, 22 April 2011

15 - O meu País (poemas da adolescência)

Era o fim da segunda República.
Desde então tudo mudou, ou nem tudo ?
Vieira da Silva
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O meu país,
Já não é só a obra de antepassados vagos
Que dividiram povos, terras e mares entre si,
E o orgulho.

O meu país,
Não são as velhas crónicas dos maiores
Descrevendo amores, batalhas e viagens,
Com séculos de pó.

O meu país,
Não é uma quinta rodeada de muralhas
Onde há guerreiros passeando nas ameias,
Guardando os figos.

O meu país,
Não são os monumentos decrépitos, 
Prostituídos por noitadas de homenagem
A qualquer borra-botas de fora.

O meu país,
Não é a colónia de férias do Sol perene,
Onde os turistas comem fados e guitarradas
Com chouriços e sardinhas.

O meu país,
Não são as tabernas com porteiros de galões,
Coutadas de caça a dólares e marcos,
Fontes de divisas.

O meu país,
Não são os palhaços mascarados do folclore
De olhos esbugalhados sob as boinas e barretes,
Espantados e analfabetos.

O meu país,
Não são os pedintes lamurientos das cidades
Tocando a sinfonia completa do abandono,
E que às vezes são ricos.

O meu país,
Não são as crianças esfarrapadas que não existem
Só porque existe uma lei que proíbe, nas cidades,
Andar descalço.

O meu país,
Não são as escolas velhas sem ginásios,
Mas com deuses, doutrinas e um guião
Para marchar.

O meu país,
Não são os aldeões que vivem em grutas e casebres
E pedem aos donos como aspiração suprema,
Um chafariz.

O meu país,
Não são os camponeses que lavram o granito
Para colherem apenas o suor do rosto,
E o pão negro.

O meu país,
Não são os pescadores de olhos gastos
Cujas ambições jazem presas na baixa-mar,
Às âncoras enferrujadas.

O meu país,
Não são os operários que lutam dia a dia,
Para conquistarem o direito de existir
E engordar o patrão.

O meu país,
Não é um estádio de raquíticos sentados
Cuja vida tem da bola o interior e a sorte,
O vazio e os pontapés.

O meu país,
Não são as raparigas que dão tudo e algo mais
Em troco da fama de um só dia,
A foto nos jornais.

O meu país,
Não são os velhos que trabalharam a vida inteira
E têm agora direito ao banco de um jardim,
Para murchar.

O meu país,
Não é a granja modelo para criar carneiros
Que se levam em camiões às romarias,
Ensinados a balir.

O meu país,
Não é a fachada grotesca dos fantoches
Que representam uma farsa com ar solene,
Para a censura.

O meu país ,
Não vive na adoração perpétua dos seus mortos
Encerrados na cripta das suas glórias,
Bolorentas.

O meu país,
Não são os homens de Olivença e Gibraltar
Nem os que depõem o povo em sacrifício,
Sobre um altar.

O meu país,
Não tem fronteiras talhadas pelo acaso
Ou pelas guerras feitas pelos meus avós,
Antes do jantar.

....................

O meu país,
São os homens abertos no orgulho,
Descendentes dos que ergueram pátrias
E as defendem.

O meu país,
São os homens que gritam e que se batem
Olhando frente a frente o seu futuro
E o progresso.

O meu país,
São os homens que escolhem os seus chefes
E lutam até ao fim pelos seus ideais,
Livres como homens.

.....................

O meu país,
É a terra que estiver sob os meus pés,
Onde vivam homens meus irmãos
E possa ser feliz.

JSR

Tuesday, 29 March 2011

14 - Haikai

(Rites from a time past, to exorcise these days of grief)

"Shinten'ō" said:

        “Friendship,
        is the albatross returning to rest (with you)
        season after season,
        faithfully”.

"Secret Games" by Katsukawa Shunsho
                                                                           
                                           "Tsubame" replied:

                                                    "Love, 
                                                    is the swallow whishing to leave the nest (for you)
                                                    and fly out... over the endless sea,
                                                    trustingly”.


JSR
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(Ritos dum tempo passado, para exorcizar estes dias de luto)

O "Albatroz" disse:

“Amizade,
é o albatroz que volta para repousar (contigo)
estação após estação,
fielmente”.

A "Andorinha" respondeu:

“Amor,
é a andorinha que deseja deixar o ninho (por ti)
e partir... voar sobre o mar sem fim,
confiadamente”.

Monday, 21 February 2011

13 - The Bearings of Home / O Rumo de Casa

Rope and Pier
Born on ancestral shores,
the bearings of home 
were imprinted forever
on the string chain
of this new and transient being.

First, the sights of a starry sky
or the brightest sun on Earth.
Then, the sounds of winds
hurling through the coastal mountains
the taste of waves.
Later, the smells of a white city
touching the cliffs of red brecha limestone.

These were the bearings of home,
all the senses' buried memories.

These are the landmarks, the milestones, 
the yardsticks against which everything is measured.

These are the indispensable boundaries
for a life away,
wandering on the further side of the horizon
a shadow among shadows,
long behind the rainbow
of far-fetched ideas of change, of difference, of distance...

Far goes the boomerang
with no hint
that its own shape
brings it back, with a vengeance, to the launching hand.

Home… it must stand still, frozen in time
as the holding covenant
the binding tie,
the loose rope on that last pier
of a long forgotten port of yesteryear. 

To home must return the lone travelers,
the free souls with no memory of death,
with no compass,
bereft of the Northern Star and the Southern Cross.

Those are the wandering shadows,
one of which
could have lost the bearings of home…

JSR
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Esta é uma tradução possível:

Nascido em terras ancestrais,
o rumo de volta às origens
ficou gravado para sempre
na matriz genética
deste novo e transitório ser.

Primeiro, a vista de um céu estrelado
ou o sol mais brilhante da Terra.
Depois, os sons dos ventos
soprando entre as montanhas da costa
o sabor das ondas.
Mais tarde, os cheiros de uma cidade branca
tocando os penhascos de brecha vermelha.

Estas foram as rotas das origens,
escondidas nas memórias de todos os sentidos.

Estes são os marcos, os limites,
os padrões em relação aos quais tudo é medido.

Estas são as fronteiras indispensáveis
para uma vida longe,
vogando no lado mais distante do horizonte
uma sombra entre sombras,
muito para lá do arco-íris
de ideias imaginárias de mudança, de diferença, de distância ...

Longe vai o bumerangue
sem suspeitar
que a sua própria forma
o traz de volta, como uma vingança, à mão que o lançou.

Casa ... tem que ficar parada, cristalizada no tempo
como a arca da aliança,
o laço que amarra
a corda solta naquele cais passado
de um porto há muito esquecido no tempo.

A casa devem retornar os viajantes solitários,
as almas livres sem memória da morte,
sem bússola,
que perderam a Estrela do Norte e o Cruzeiro do Sul.

Essas são as sombras errantes,
uma das quais
poderia ter perdido o rumo de casa ...

JSR

Tuesday, 15 February 2011

12 - A Rotina

"Profile of Time" by Salvador Dali

Quando o igual de cada dia
se torna pedra

gravando os sulcos dum caminho circular,

ficou asfixiado 
no molde rígido

o impossível dum gesto diferente.

JSR

Monday, 7 February 2011

11 - Sometimes

Pôr do Sol em Sesimbra
Sometimes,
to make peace with life
(and… well… fate?)

I need nothing more
than a blue sky
my green mountains
the sea breeze of home

and your smile…

JSR

Wednesday, 26 January 2011

10 - A Chuva na Avenida (souvenirs d'en France)

"Rue de Paris" par Gustave Caillebotte

O barulho molhado dos carros
que passam na avenida,
dá a verdadeira dimensão
à chuva que caiu
e cai…

Recuso enternecer-me
com a minha faringite,
com a leitura dos jornais
com a inteligência de uns
com a estupidez dos outros.

Tuer le temps?
Preciso de ir lá para fora apanhar chuva.

JSR