Era o fim da segunda República.
Desde então tudo mudou, ou nem tudo ?
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Vieira da Silva |
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O meu país,
Já não é só a obra de antepassados vagos
Que dividiram povos, terras e mares entre si,
E o orgulho.
O meu país,
Não são as velhas crónicas dos maiores
Descrevendo amores, batalhas e viagens,
Com séculos de pó.
O meu país,
Não é uma quinta rodeada de muralhas
Onde há guerreiros passeando nas ameias,
Guardando os figos.
O meu país,
Não são os monumentos decrépitos,
Prostituídos por noitadas de homenagem
A qualquer borra-botas de fora.
O meu país,
Não é a colónia de férias do Sol perene,
Onde os turistas comem fados e guitarradas
Com chouriços e sardinhas.
O meu país,
Não são as tabernas com porteiros de galões,
Coutadas de caça a dólares e marcos,
Fontes de divisas.
O meu país,
Não são os palhaços mascarados do folclore
De olhos esbugalhados sob as boinas e barretes,
Espantados e analfabetos.
O meu país,
Não são os pedintes lamurientos das cidades
Tocando a sinfonia completa do abandono,
E que às vezes são ricos.
O meu país,
Não são as crianças esfarrapadas que não existem
Só porque existe uma lei que proíbe, nas cidades,
Andar descalço.
O meu país,
Não são as escolas velhas sem ginásios,
Mas com deuses, doutrinas e um guião
Para marchar.
O meu país,
Não são os aldeões que vivem em grutas e casebres
E pedem aos donos como aspiração suprema,
Um chafariz.
O meu país,
Não são os camponeses que lavram o granito
Para colherem apenas o suor do rosto,
E o pão negro.
O meu país,
Não são os pescadores de olhos gastos
Cujas ambições jazem presas na baixa-mar,
Às âncoras enferrujadas.
O meu país,
Não são os operários que lutam dia a dia,
Para conquistarem o direito de existir
E engordar o patrão.
O meu país,
Não é um estádio de raquíticos sentados
Cuja vida tem da bola o interior e a sorte,
O vazio e os pontapés.
O meu país,
Não são as raparigas que dão tudo e algo mais
Em troco da fama de um só dia,
A foto nos jornais.
O meu país,
Não são os velhos que trabalharam a vida inteira
E têm agora direito ao banco de um jardim,
Para murchar.
O meu país,
Não é a granja modelo para criar carneiros
Que se levam em camiões às romarias,
Ensinados a balir.
O meu país,
Não é a fachada grotesca dos fantoches
Que representam uma farsa com ar solene,
Para a censura.
O meu país ,
Não vive na adoração perpétua dos seus mortos
Encerrados na cripta das suas glórias,
Bolorentas.
O meu país,
Não são os homens de Olivença e Gibraltar
Nem os que depõem o povo em sacrifício,
Sobre um altar.
O meu país,
Não tem fronteiras talhadas pelo acaso
Ou pelas guerras feitas pelos meus avós,
Antes do jantar.
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O meu país,
São os homens abertos no orgulho,
Descendentes dos que ergueram pátrias
E as defendem.
O meu país,
São os homens que gritam e que se batem
Olhando frente a frente o seu futuro
E o progresso.
O meu país,
São os homens que escolhem os seus chefes
E lutam até ao fim pelos seus ideais,
Livres como homens.
.....................
O meu país,
É a terra que estiver sob os meus pés,
Onde vivam homens meus irmãos
E possa ser feliz.
JSR