Friday, 22 April 2011

15 - O meu País (poemas da adolescência)

Era o fim da segunda República.
Desde então tudo mudou, ou nem tudo ?
Vieira da Silva
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O meu país,
Já não é só a obra de antepassados vagos
Que dividiram povos, terras e mares entre si,
E o orgulho.

O meu país,
Não são as velhas crónicas dos maiores
Descrevendo amores, batalhas e viagens,
Com séculos de pó.

O meu país,
Não é uma quinta rodeada de muralhas
Onde há guerreiros passeando nas ameias,
Guardando os figos.

O meu país,
Não são os monumentos decrépitos, 
Prostituídos por noitadas de homenagem
A qualquer borra-botas de fora.

O meu país,
Não é a colónia de férias do Sol perene,
Onde os turistas comem fados e guitarradas
Com chouriços e sardinhas.

O meu país,
Não são as tabernas com porteiros de galões,
Coutadas de caça a dólares e marcos,
Fontes de divisas.

O meu país,
Não são os palhaços mascarados do folclore
De olhos esbugalhados sob as boinas e barretes,
Espantados e analfabetos.

O meu país,
Não são os pedintes lamurientos das cidades
Tocando a sinfonia completa do abandono,
E que às vezes são ricos.

O meu país,
Não são as crianças esfarrapadas que não existem
Só porque existe uma lei que proíbe, nas cidades,
Andar descalço.

O meu país,
Não são as escolas velhas sem ginásios,
Mas com deuses, doutrinas e um guião
Para marchar.

O meu país,
Não são os aldeões que vivem em grutas e casebres
E pedem aos donos como aspiração suprema,
Um chafariz.

O meu país,
Não são os camponeses que lavram o granito
Para colherem apenas o suor do rosto,
E o pão negro.

O meu país,
Não são os pescadores de olhos gastos
Cujas ambições jazem presas na baixa-mar,
Às âncoras enferrujadas.

O meu país,
Não são os operários que lutam dia a dia,
Para conquistarem o direito de existir
E engordar o patrão.

O meu país,
Não é um estádio de raquíticos sentados
Cuja vida tem da bola o interior e a sorte,
O vazio e os pontapés.

O meu país,
Não são as raparigas que dão tudo e algo mais
Em troco da fama de um só dia,
A foto nos jornais.

O meu país,
Não são os velhos que trabalharam a vida inteira
E têm agora direito ao banco de um jardim,
Para murchar.

O meu país,
Não é a granja modelo para criar carneiros
Que se levam em camiões às romarias,
Ensinados a balir.

O meu país,
Não é a fachada grotesca dos fantoches
Que representam uma farsa com ar solene,
Para a censura.

O meu país ,
Não vive na adoração perpétua dos seus mortos
Encerrados na cripta das suas glórias,
Bolorentas.

O meu país,
Não são os homens de Olivença e Gibraltar
Nem os que depõem o povo em sacrifício,
Sobre um altar.

O meu país,
Não tem fronteiras talhadas pelo acaso
Ou pelas guerras feitas pelos meus avós,
Antes do jantar.

....................

O meu país,
São os homens abertos no orgulho,
Descendentes dos que ergueram pátrias
E as defendem.

O meu país,
São os homens que gritam e que se batem
Olhando frente a frente o seu futuro
E o progresso.

O meu país,
São os homens que escolhem os seus chefes
E lutam até ao fim pelos seus ideais,
Livres como homens.

.....................

O meu país,
É a terra que estiver sob os meus pés,
Onde vivam homens meus irmãos
E possa ser feliz.

JSR

3 comments:

  1. Gosto em especial deste cantinho do blogue, sem que os outros percam o brilho, é claro, mas admira-me sempre esta "outra face", a versatilidade do tom na forma de expressar (aqui) ou de conter (nos outros)uma forma de sentir.
    O País mudou muito, sim, mudou no essencial da pobreza e, sobretudo, na capacidade de desejar mais. Mas não deixou de ser conformista, é uma espécie de absurdo, é como se sentissemos que a pobreza é o nosso destino natural e, por isso, a prosperidade (ou a aparência dela) é sempre um momento roubado, um fugaz intervalo.Pode-se ser feliz aqui? Sim, mas apenas se, compreendendo, não desistirmos.

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  2. Saber ver... como demonstrado neste comentário, é uma qualidade rara em quem lê e inestimável para quem escreve. Fico muito sensibilizado, Suzana. Por outro lado, e como não me levo muito a sério, “beauty is in the eye of the beholder”, mostly...
    As duas vozes diferentes, entre o Caged Albatross e o Hai Mousai, pretendem separar o espaço entre a realidade objectiva e a realidade introspectiva.
    No caso de ”O meu País”, há também a considerável diferença de tempo. Concordo que às grandes mudanças materiais não correspondeu a esperada evolução das mentalidades. Infelizmente. A procura da satisfação dos desejos consumistas, ainda por cima a crédito, nem trouxe a felicidade esperada nem mais sabedoria de vida. O conformismo nacional vem muitas vezes da renúncia aos objectivos pessoais por aceitação da própria incapacidade e da amargura correspondente que se manifesta numa avaliação social destrutiva.
    Demasiado fado e pouca garra...
    Nunca desistir é o segredo da felicidade.

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  3. Por um país de pedra e vento duro
    Por um país de luz perfeita e clara
    Pelo negro da terra e pelo branco do muro

    Pelos rostos de silêncio e de paciência
    Que a miséria longamente desenhou
    Rente aos ossos com toda a exactidão
    Dum relatório irrecusável

    E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

    E pela limpidez das tão amadas
    Palavras sempre ditas com paixão
    Pela cor e pelo peso das palavras
    Pelo concreto silêncio limpo das palavras
    Donde se erguem as coisas nomeadas
    Pela nudez das palavras deslumbradas

    - Pedra rio vento casa
    Pranto dia canto alento
    Espaço raiz e água
    Ó minha pátria e meu centro

    Me dói a lua me soluça o mar
    E o exílio se inscreve em pleno tempo
    (smba)

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