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| Gustav Klimt - The Kiss (detail) |
Toma nos teus braços o que de mim ficou
e rega com as tuas lágrimas sinceras,
aquilo que esperas
seja a alma murcha que se pode erguer,
se alguém a aquecer
com ternura igual à que a destroçou.
Toma no silencio profundo dos teus olhos
a luz violenta da minha tempestade,
escuta sem tremer aquilo que eu disser
porque és mulher,
porque te posso confiar as agruras e os escolhos
o cansaço velho e a esperança sem idade.
Toma o meu rosto nas tuas mãos pequenas
e oculta-me o mundo inteiro,
para que eu não saiba nada além das penas
de que sou o único companheiro,
como castigo
de as trazer sempre comigo.
Toma a bola de neve em que me tornei
rolando pela escarpa branca e fria,
a bola de neve que eu te dei
o gelo que me escondia,
as palavras duras que me escutaste
leio agora nos teus olhos que já me perdoaste.
Vem, como a brisa que a noite trás do mar
e chega devagar,
torna os meus sonhos povoados de amargura
numa enseada segura,
onde nada perturbe a calma que nunca conheci
e espero de ti.
Quero a alegria breve de me sentir igual
à imagem que fiz de mim,
quero o teu olhar e o som da tua voz
quero por fim,
ver-te alegre também por estarmos sós
e livres de julgar o bem e o mal.
Espero-te. Vem quando quiseres
e souberes,
quero que o momento sejas tu a decidir
mas sei que hás-de vir,
sei que tomarás nos teus braços a minha solidão
e não me dirás que espere sem razão.
JSR