Tuesday, 16 November 2010

6 - Vem

Gustav Klimt - The Kiss (detail)
Toma nos teus braços o que de mim ficou
e rega com as tuas lágrimas sinceras,
aquilo que esperas
seja a alma murcha que se pode erguer,
se alguém a aquecer
com ternura igual à que a destroçou.

Toma no silencio profundo dos teus olhos
a luz violenta da minha tempestade,
escuta sem tremer aquilo que eu disser
porque és mulher,
porque te posso confiar as agruras e os escolhos
o cansaço velho e a esperança sem idade.

Toma o meu rosto nas tuas mãos pequenas
e oculta-me o mundo inteiro,
para que eu não saiba nada além das penas
de que sou o único companheiro,
como castigo
de as trazer sempre comigo.

Toma a bola de neve em que me tornei
rolando pela escarpa branca e fria,
a bola de neve que eu te dei
o gelo que me escondia,
as palavras duras que me escutaste
leio agora nos teus olhos que já me perdoaste.

Vem, como a brisa que a noite trás do mar
e chega devagar,
torna os meus sonhos povoados de amargura
numa enseada segura,
onde nada perturbe a calma que nunca conheci
e espero de ti.

Quero a alegria breve de me sentir igual
à imagem que fiz de mim,
quero o teu olhar e o som da tua voz
quero por fim,
ver-te alegre também por estarmos sós
e livres de julgar o bem e o mal.

Espero-te. Vem quando quiseres
e souberes,
quero que o momento sejas tu a decidir
mas sei que hás-de vir,
sei que tomarás nos teus braços a minha solidão
e não me dirás que espere sem razão.

JSR

1 comment:

  1. Dá-me lírios, lírios,
    E rosas também.
    Mas se não tens lírios
    Nem rosas a dar-me,
    Tem vontade ao menos
    De me dar os lírios
    E também as rosas.
    Basta-me a vontade,
    Que tens, se a tiveres,
    De me dar os lírios
    E as rosas também,
    E terei os lírios -
    Os melhores lírios -
    E as melhores rosas
    Sem receber nada,
    a não ser a prenda
    Da tua vontade
    De me dares lírios
    E rosas também.
    (Álvaro de Campos)

    ReplyDelete