Friday, 22 March 2013

30 - Axis Mundi










O equinócio da Primavera
                             chegou e partiu
mas continuam a chuva
                             e o tempo frio.
Apareceram os botões brancos
                             ou de cor
mas as cerejeiras
                             nunca mais estão em flor.

Os deuses que fazem renascer
                             a natureza
já não são o que eram
                             concerteza,
deixam-nos para aqui
                             abandonados
entregues aos humores
                             dos tristes fados.

O mundo está cheio de protestos
                             e exigências,
de verdadeiras indignações
                             e falsas aparências.
Os espoliados fazem marchas
                             e manifestações,
enganados pelos slogans
                             e pelas emoções.

Não gosto de cabeças
                             cheias de certezas,
de ideias feitas,
                             de mensagens sobre as mesas.
Não gosto dos que agem
                             sem sucesso,
não gosto dos que criticam
                             sem progresso.

Por amor por ti, voltámos
                             a este fim do mundo,
a este desassossego,
                             a este desmando profundo.
Quiseste reencontrar as tuas raízes
                             mais antigas,
sei que são também as minhas,
                             sei que a isso não me obrigas.

Mas sabes que enquanto foi tempo de fazer,
                             fiz
e quando for tempo de partirmos,
                             simplesmente diz.
Sabes que não voltarei a ser quem fui
                             e já não sou,
quando tiver que ir:
                             simplesmente vou.

JSR

Friday, 21 December 2012

29 - Tempo de Solstício

Vale do Côa, 20 000 AC
imaginem que foi o tempo
que separou a luz do nada
que desenrolou o fio da estrada
ontem
imaginem que foi o tempo
que transportou o movimento e a cor
que permitiu a alegria e a dor
ontem

imaginem que é o tempo
que desperta a memória esquecida
que atrasa o relógio da vida
hoje
imaginem que é o tempo
que pode exigir no altar do solstício
por uma nova vida, outra vida em sacrifício
hoje

imaginem que será o tempo
que fará o Sol nascer
para que novos olhos o possam ver 
amanhã
imaginem que será o tempo
que fará as ondas continuarem a vir
para que novas mãos as possam sentir 
amanhã

imaginem que afinal o tempo
cria os deuses do céu e da terra
que nos dividem na paz e na guerra
sempre
imaginem que afinal o tempo
escolhe o nosso lugar onde nascer
                                                                 decide a nossa hora de morrer
                                                                 sempre...

                                                                 JSR

Saturday, 17 November 2012

28 - these last years of freedom...



1.
one by one
the horizon routes are shutting down
the eastern dawn
is long past and gone

the northern winds’ tribute has been met
and this fool’s wings are torn
the midday lovers are worn
the western clouds are hiding the sunset

2.
the rush of travelling far and fair
is now a pain and a nuisance to bear

the illusions of helping to solve
the earth-shaking crisis of our time,
even lost and buried, do not absolve
the arrogance of a mind in its prime  

3.
the curiosity is here, alert and willing
but the will is wobbly, the dark hours beckon
the old flame is fading and flickering
its strength drained and it may be out in a second

it is time to atone for the sins not committed
for lack of time or already acquitted

4.
the old friends have scattered  
to the farthest corners of the seven seas
of all those that mattered
some have died young
their dreams still full of song
others, of old age they have the keys
but few are left on the ground
and fewer still, around

5.
children are a balm for this heart’s endeavours
a constant worry but happy memories forever
of their hands in my hands, their curiosity and trust
young lives to which all else must adjust

as time goes by they are all that is left
from the old line of explorers no more
past captains of sea trade and war
theirs was the horizon and the world is now bereft

6.
the life companion is at times disenchanted
of her loyal faith being taken for granted
as spousal duty, beyond and above
the vagaries of lust and love

that’s her view
and she must always be true...

7.
there are many names for the tenderness
that makes all walks of life bearable
there are many forms of closeness
but few are the soul mates constant and reliable

8.
the older family is gone, imparting the thought
of who is now in the front line, sliding to naught...

9.
one by one, the sea doors of the origins
are being shut and drawn
the sky windows are pulled down
inside, the emptiness grows in disarray
amidst the crowds, as age makes way
bonds are being broken and bondage begins.

JSR

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Uma tradução possível:

estes últimos anos de liberdade...

1.
um por um
os rumos do horizonte estão a fechar-se
a alvorada do oriente
há muito passou e desapareceu

o tributo aos ventos do norte foi pago
e as asas deste louco estão magoadas
os amores do meio-dia estão gastos
as nuvens a ocidente escondem o pôr do sol

2.
o entusiasmo de viajar longe e bem
é agora um esforço e um incómodo a suportar

as ilusões de ajudar a resolver
as crises fundamentais do nosso tempo
mesmo perdidas e enterradas, não absolvem
a arrogância de uma mente no seu apogeu

3.
a curiosidade continua, alerta e disposta
mas a vontade é vacilante, as horas escuras espreitam
a velha chama está a esmorecer e a tremeluzir
a sua força esvaiu-se e pode apagar-se num segundo

é tempo de expiar os pecados não cometidos
por falta de tempo ou já absolvidos

4.
os velhos amigos espalharam-se
pelos cantos mais longínquos dos sete mares
de todos aqueles que importavam
alguns morreram jovens
os seus sonhos ainda cheios de música
outros, têm as chaves da longevidade
mas poucos foram deixados no terreiro
e menos ainda, estão por perto

5.
os filhos são um bálsamo para este coração esforçado
uma preocupação constante mas memórias felizes para sempre
das suas mãos nas minhas mãos, da sua curiosidade e confiança
jovens vidas às quais tudo o resto tem que se ajustar

à medida que o tempo passa eles são tudo o que resta
da velha linhagem de exploradores desaparecidos
antigos capitães de comércio e guerra no mar
deles era o horizonte e o mundo está agora vazio

6.
a companheira da vida está por vezes triste
da sua lealdade constante ser tida como certa,
como dever conjugal, para além e acima
das inconstâncias da luxúria e do amor

é seu ponto de vista
e ela tem que ter sempre razão...

7.
há muitos nomes para a ternura
que torna suportáveis todos os caminhos da vida
há muitas formas de proximidade
mas poucas são as almas gémeas constantes e fiáveis

8.
a família mais velha partiu, deixando o pensamento
de quem está agora na linha da frente, deslizando para o nada...

9.
uma a uma, as portas do mar das origens
estão a ser fechadas e corridas
as janelas do céu são descidas
dentro, o vazio cresce em desordem
no meio das multidões, à medida que a idade avança
os laços estão a ser quebrados e a escravidão começa.

JSR

Friday, 25 May 2012

27 - Paris ma Ville, au Mois de Mai


Au Palais de l'Elysée...

Trop souvent, depuis trop longtemps
je m’ennuie de Paris, ma ville clé,
clé du savoir, clé de l’espoir, clé de liberté
des temps de jeunesse, des rêves épuisés.

Loin vont les projets d’autres printemps,
les grandes illusions ont pris la clé des champs.

Le mois de Mai est devenu sage,
il n´y a plus de muguet, plus de fleurs
qui annoncent le retour du bonheur.

Sous les pavés il n’y a plus la plage,
il n’y a que la grève des désœuvrés.
Je m’ennuie de Paris, ma ville clé.

Rencontre des francs venus d’Asie
et des gallo-romains fils d’Italie,
Paris au milieu, île de la Seine, Paris phare
d’une civilisation qui s’égare.

Balance de l’Europe en détresse
Paris la vieille, ne vaut plus une messe.

Née du viol et descendante inique
d’un gigolo romain et d’une putain germanique,
Paris reine bâtarde, qui sont’ ils ces avatars,
ces pauvres cons, ces tristes barbares
qui campent depuis quelque temps à l’Élysée ?

Je m’ennuie de Paris, ma ville clé.

JSR


( je m'ennuie de = tenho saudades de )

Sunday, 6 May 2012

26 - Dia da Mãe em Portugal


Mother and Child - Bryce Brown

Foram tão claros os desejos que me deu para sonhar
Naquela lenta agonia
Foram tantos os anos que tive para me lembrar
No despertar de cada dia

Tem que me desculpar

Eu era aquele que não queria deixar pégadas na areia
E deixei
Eu era aquele que queria passar entre os fios da teia
E não passei

Tem que me desculpar

Pelo silêncio que deixou desde que morreu
Para eu compreender
Pelo caminho percorrido e que nunca conheceu
Para eu escolher

Tem que me desculpar

Por subir os degraus que há tanto tempo me talhou
Mas não saber olhar
Por ter o desprendimento que sempre me ensinou  
Mas não querer parar

Tem que me desculpar

Quando o tempo que me resta se esvai nesta ampulheta
Com a vida toda atrás
Quando o balanço fica melhor fechado na gaveta
Com a chave deixada em paz

Tem que me desculpar

Do egoísmo inconsciente em relação aos que ficaram
Parados nesta ausência
Do limbo onde de volta os alísios me empurraram
Perdido nesta inexistência

JSR

Sunday, 18 March 2012

25 - Sleepless Nights

Lion and Horse at Sunset - Rufino Tamayo

Of ghosts are filled my sleepless nights,
there are angels and devils
and other shadows of the mind,
straws in the wind, omens and foresights
with mysterious codicils
for awaken memories and weird nightmares of every kind.

My heart jumps to an irregular pace,
a lion in ambush, a horse in a race,
for in my body I have both predator and prey
the fierce lion of the night, the fickle horse of the day,
on their fight depends my life, my fate
to meet a certain destiny at an uncertain date.

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Noites de Vigília

De fantasmas são preenchidas as minhas noites sem dormir,
há anjos e demónios
e outras sombras da mente,
sinais de alerta, augúrios e presságios
com codicilos misteriosos
para memórias despertas e pesadelos estranhos de todo o tipo.

O meu coração salta para um ritmo irregular,
como um leão em emboscada, como um cavalo em corrida,
porque no meu corpo eu tenho o predador e a presa
o leão feroz da noite, o cavalo inconstante do dia,
da sua luta depende a minha vida, o meu destino
de chegar a um fim certo numa data incerta.

JSR

Tuesday, 11 October 2011

24 - Quando Tu Não Estás

Into The Void - Linton Meagher


Tenho que te dizer
uma e outra vez,
tenho que te escrever
porque tu não me crês.

Quando tu não estás,
durante o dia parece 
que o Sol empalidece
e quando a noite chega, traz
o vazio de ti,
pois na angústia da tua ausência      
até os candeeiros da rua perdem o brilho.

Tenho que te dizer:
Se fui eu que parti
não sei, os pensamentos perdem a coerência,
como perco eu a razão dos caminhos que trilho.

Tenho que te escrever:
Quando tu não estás
o mundo parece tão incompleto como eu.

Não sei se algum de nós se perdeu, 
mas tanto faz,
sei da minha raiva de tu não estares 
onde te procuro,
sei da tristeza de me deixares,
sei que voltaremos ao caminho seguro.

Tenho que te dizer
uma e outra vez,
tenho que te escrever
porque tu não me crês.

JSR